sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

Engravidar é...

Até hoje estou tentando entender. Juro.

Foi como se minha existência desse um pulinho ali, me dizendo “volto já”, mas dobrou a esquina e nunca mais voltou. Depois que pari, passei meses sentada, esperando, até que decidi cair em mim, na nova “mim” e seguir em frente.

Engravidar não é uma fase, aprendi. É constante. Estou grávida até hoje. Começou e não tem fim. Porque se ser gestante é gerir um ser vivo, o que acontece após o parto? Bum, seguimos gerando esse mesmo ser vivo. E, adianto, é um projeto contínuo, mutável, tsunamístico, gigantesco, transformador, cansativo, mas delicioso.

Era agosto de 2015 quando tomei coragem e decidi fazer um teste de farmácia: estava ali, em menos de 10 segundos (certamente bem menos!), um filho. Francisco hoje tem nome, rosto, corpo, dentes (sete! Eeeeeeee!) e nove meses de existência extrauterina, mas naquele momento ele era um divisor de “eu's”. Eu morri ali, não vou mentir. E toda morte traz tristeza, tem seu peso, sua dor. Chorei umas boas horas do meu falecimento sem saber disso, evidentemente, mas hoje entendo: eu chorava muito mais por mim do que por ele.

Meu filho não demorou pra tomar minha existência pra ele. É surreal a forma como isso acontece. De repente, tudo vira ao avesso. E engravidar é entender o mais rápido possível isso.

O corpo te ajuda (?) muito nesse processo de cair em si. Em poucas semanas, os enjoos. Os meus, por exemplo, foram cruéis. Se eu comia pra passar o enjoo, eu vomitava. Se eu vomitava, ficava com fome. Se eu sentia fome, eu tinha enjoo… e era esse ciclo sem fim. Quando, por ventura, eu conseguia comer na “medida certa”, vinha o sono. Mas não era um sono normalzinho, pós-almoço, era uma pane no sistema. Se eu não me deitasse, eu tinha plena certeza de que cairia no chão. Eu sentia pena das mães trabalhadoras do meu Brasil que, com 1h de almoço, precisava voltar ao batente “de boas”. No meu caso, desempregada, eu me dei valendo ao luxo de dormir horas e mais horas desse sono avassalador.

Grávida, eu tinha medo de sair de casa. Medo de morrer de fome, medo de cair de sono, medo das inseguranças do mundo e meu bucho avançado pra frente como se fosse capaz de deter qualquer coisa. Sempre achei que o bebê pudesse ser mais bem guardado anatomicamente. Sei lá. Achava muito exposta essa proeminência abdominal pra frente. E, pra completar, a cereja do bolo foi que em 2015, como se não bastassem todas as misérias do mundo, descobriu-se o zika vírus. Então, era grávida gritando, menino chorando, papagaio correndo, cachorro latindo e eu vestindo casaco, legging, meia e sapato fechado num ônibus lotado Rio Doce/CDU. Morreria de calor, decerto, mas jamais pegaria zika, meu amigo! Vem ser grávida assim no Brasil, vem!

Gravidez é para fortes. E com isso não chamo de fracas as que não desejam ter filhos de jeito nenhum (tópico pra outro texto, com certeza!).

Para os mosquitos, não tinha jeito: repelente, casa, roupas apropriadas e um pouquinho de fé em Deus. Para os enjoos, terminei descobrindo com minha amiga Suzane que picolé de limão é a solução. Depois disso, desenvolvi algumas evoluções pra isso, congelando uvas e água de coco. Então o tempo foi passando, a barriga crescendo e o amor tomando o espaço da dúvida; o amor percorrendo o corpo, sendo o sangue dessas novas veias, as maternas, que têm fibras muito firmes, que alimentam e que nos retroalimentam também.


Descobri que a gravidez não explica, mas complica a gente num novelo no qual ainda ando meio perdida, tentando achar o fio dessa meada, que vem aguçando a cada dia minha curiosidade, minha maturidade pra enfrentar todas essas transformações. Sem dúvida alguma, mais forte, muito mais forte.

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