sábado, 14 de janeiro de 2017

Des-envolver

Texto de 19/07/2016

Todos os dias, aproximadamente às 20h, você dorme. E eu sinto um alívio enorme por você e por mim. Por você porque sei que é preciso descanso para crescer. Por mim, porque é preciso descanso pra te ver crescer. Cuidar de você é exatamente a mesma coisa que cuidar de mim. Talvez eu já tenha dito essa mesma frase alguma vez na vida, mas certamente jamais carregada da certeza que tenho hoje.

Você começa a adormecer no meu peito, entre uma sugada e outra. Varia entre descansar a bochecha na lateral do meu tórax, empurrar o seu mínimo nariz no meu mamilo ou, numa puxada forte, cair de cabeça para trás , de papo pra o ar e soltar um suspiro fundo e bem audível. Confesso que, de todas as maneiras, a última é a que mais alivia meu coração.

Suspirando venho vivendo a minha vida há tanto tempo, com um chorinho aqui e outro ali, de forma tal que sei exatamente o valor que o ar colocado pra fora tem pra alma da gente. É artifício de varrer pra fora da nossa existência todo o cansaço, seja físico, seja emocional.

Então, pé ante pé, te carrego num balancinho tímido, sem muito chamego pra não encomodar, e te aninho no berço com cuidado de não acordar. Deixo a minha mão no teu peito por uns segundos só pra te passar o calor da certeza de que você nunca estará sozinho, seja por virgília, seja em pensamento.

Por volta das 4h, às vezes um pouco antes, às vezes um pouco depois, você me acorda da saudade que já passa da hora de ser matada. E vou, meio sonolenta e descoordenada, aquecer novamente seu corpinho nos meus braços, dar um cheirinho no meio do seu rosto, sem me preocupar se o amor vai na ponta do nariz ou no meio da boca e te alimentar, alimentando-me. Se Deus existe, ele está entre eu e você ali.

Coloco teu sono aninhado outra vez, cuidadosamente, no berço e volto, agora mais desperta, pra saudade. Cuido de dizer a ela que daqui a pouco já é tempo outra vez de morrer e pego no sono novamente. 8h.

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