sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

A primeira carta de Francisco

a Sara Holmes

Betina,

Nesses primeiros meses de existência, tudo parece meio confuso mesmo. O mundo balança, é morno e talvez rolem algumas cambalhotas involuntárias. Já passei por isso, sei como é. Tem hora que bate fome; a gente ainda nem sabe o que é fome, mas é uma carência de coisa. Depois bate um sono; a gente também não sabe o que é sono, talvez uma fraqueza. É bem escurinho aí dentro e úmido, mas morno. Aos poucos a gente acostuma com o balanço, com o soninho e até curte. Minha mãe me disse que nesses primeiros meses de vida, ela ia se acostumando junto comigo a existir. E sentir tontura, enjoo e um sono e fome impossíveis. Era uma vida nova a dela também.

Tenha um pouco de paciência com a sua mãe. Ela está aprendendo a existir tal qual a minha. Então, vai rolar sim umas comidas tronxas, uns chacoalhões aí dentro e talvez, muito talvez, uns ruídos altos. Sua mãe vai tentar mudar o mundo pra você, mas às vezes o trânsito, às vezes as ruas, às vezes a vida dos outros. Vida dos outros é outra coisa com a qual é bom você ir se acostumando. A gente ainda (todos nós) não aprendemos onde começa a deles e termina a nossa. Então, pode ser que tentem te enfiar uma chupeta. Só confia na tua mãezinha. Ela não sabe, mas sabe mais das coisas do que ela mesma acredita. É difícil mesmo de entender. Mas vocês hão de se entender.

Quando você apareceu na vida dela em forma de dois tracinhos num pedacinho de papel, nasceu ali também uma coisa chamada maternidade. A sociedade é um pouco impaciente com isso, parece que ainda não entendeu muito bem o que é, muito embora a maternidade seja – me perdoe a obviedade - a mãe de tudo, literalmente. Sejamos otimistas!

As coisas vão entrando nos eixos. Logo, logo, teu espaço aí dentro vai ficar mais apertadinho. Às vezes vai parecer mais aconchegante, mas uma hora você vai esticar braços e perninhas pedindo arrego à sua mãe. A minha era pequenininha e me contou que a sua é também, mas o coração, ah, esse é do tamanho do mundo. Então tenha mais um bocadinho de paciência, você cresceu e, logo, logo, ela vai te liberar pra o mundo. Mãe tem essa natureza de preparar, vai vendo.

Betina, no dia em que você nascer, eu já terei mais de um ano de vida. Serei o dono dos conceitos e experiências. Se você quiser, eu te ajudo a dormir. Dormir é difícil que só: dá choro, dá raiva, dá um monte de coisa que ainda preciso de mais um ano de vida pra saber os nomes, mas que dá, dá. Aprendi que fechar o olho ajuda, sentir o cheiro da mamãe também. Minha mãe tem cheirinho de paz. A sua há de ter também. Só confia. Confia e chega logo. A gente tá numa ansiedade só pra te conhecer. O mundo é bom, vem se juntar à gente pra ver se ele fica ainda melhor!

Um carinho babado (porque ainda não sei dar beijo),

Francisco.


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