Betina,
Nesses primeiros
meses de existência, tudo parece meio confuso mesmo. O mundo
balança, é morno e talvez rolem algumas cambalhotas involuntárias.
Já passei por isso, sei como é. Tem hora que bate fome; a gente
ainda nem sabe o que é fome, mas é uma carência de coisa. Depois
bate um sono; a gente também não sabe o que é sono, talvez uma
fraqueza. É bem escurinho aí dentro e úmido, mas morno. Aos poucos
a gente acostuma com o balanço, com o soninho e até curte. Minha
mãe me disse que nesses primeiros meses de vida, ela ia se
acostumando junto comigo a existir. E sentir tontura, enjoo e um sono
e fome impossíveis. Era uma vida nova a dela também.
Tenha um pouco de
paciência com a sua mãe. Ela está aprendendo a existir tal qual a
minha. Então, vai rolar sim umas comidas tronxas, uns chacoalhões
aí dentro e talvez, muito talvez, uns ruídos altos. Sua mãe vai
tentar mudar o mundo pra você, mas às vezes o trânsito, às vezes
as ruas, às vezes a vida dos outros. Vida dos outros é outra coisa
com a qual é bom você ir se acostumando. A gente ainda (todos nós)
não aprendemos onde começa a deles e termina a nossa. Então, pode
ser que tentem te enfiar uma chupeta. Só confia na tua mãezinha.
Ela não sabe, mas sabe mais das coisas do que ela mesma acredita. É
difícil mesmo de entender. Mas vocês hão de se entender.
Quando você
apareceu na vida dela em forma de dois tracinhos num pedacinho de
papel, nasceu ali também uma coisa chamada maternidade. A sociedade
é um pouco impaciente com isso, parece que ainda não entendeu muito
bem o que é, muito embora a maternidade seja – me perdoe a
obviedade - a mãe de tudo, literalmente. Sejamos otimistas!
As coisas vão
entrando nos eixos. Logo, logo, teu espaço aí dentro vai ficar mais
apertadinho. Às vezes vai parecer mais aconchegante, mas uma hora
você vai esticar braços e perninhas pedindo arrego à sua mãe. A
minha era pequenininha e me contou que a sua é também, mas o
coração, ah, esse é do tamanho do mundo. Então tenha mais um
bocadinho de paciência, você cresceu e, logo, logo, ela vai te
liberar pra o mundo. Mãe tem essa natureza de preparar, vai vendo.
Betina, no dia em
que você nascer, eu já terei mais de um ano de vida. Serei o dono
dos conceitos e experiências. Se você quiser, eu te ajudo a dormir.
Dormir é difícil que só: dá choro, dá raiva, dá um monte de
coisa que ainda preciso de mais um ano de vida pra saber os nomes,
mas que dá, dá. Aprendi que fechar o olho ajuda, sentir o cheiro da
mamãe também. Minha mãe tem cheirinho de paz. A sua há de ter
também. Só confia. Confia e chega logo. A gente tá numa ansiedade
só pra te conhecer. O mundo é bom, vem se juntar à gente pra ver
se ele fica ainda melhor!
Um carinho babado
(porque ainda não sei dar beijo),
Francisco.
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