Até hoje estou
tentando entender. Juro.
Foi como se minha
existência desse um pulinho ali, me dizendo “volto já”, mas
dobrou a esquina e nunca mais voltou. Depois que pari, passei meses
sentada, esperando, até que decidi cair em mim, na nova “mim” e
seguir em frente.
Engravidar não é
uma fase, aprendi. É constante. Estou grávida até hoje. Começou e
não tem fim. Porque se ser gestante é gerir um ser vivo, o que
acontece após o parto? Bum, seguimos gerando esse mesmo ser vivo. E,
adianto, é um projeto contínuo, mutável, tsunamístico,
gigantesco, transformador, cansativo, mas delicioso.
Era agosto de 2015
quando tomei coragem e decidi fazer um teste de farmácia: estava
ali, em menos de 10 segundos (certamente bem menos!), um filho.
Francisco hoje tem nome, rosto, corpo, dentes (sete! Eeeeeeee!) e
nove meses de existência extrauterina, mas naquele momento ele era
um divisor de “eu's”. Eu morri ali, não vou mentir. E toda morte
traz tristeza, tem seu peso, sua dor. Chorei umas boas horas do meu
falecimento sem saber disso, evidentemente, mas hoje entendo: eu
chorava muito mais por mim do que por ele.
Meu filho não
demorou pra tomar minha existência pra ele. É surreal a forma como
isso acontece. De repente, tudo vira ao avesso. E engravidar é
entender o mais rápido possível isso.
O corpo te ajuda (?)
muito nesse processo de cair em si. Em poucas semanas, os enjoos. Os
meus, por exemplo, foram cruéis. Se eu comia pra passar o enjoo, eu
vomitava. Se eu vomitava, ficava com fome. Se eu sentia fome, eu
tinha enjoo… e era esse ciclo sem fim. Quando, por ventura, eu
conseguia comer na “medida certa”, vinha o sono. Mas não era um
sono normalzinho, pós-almoço, era uma pane no sistema. Se eu não
me deitasse, eu tinha plena certeza de que cairia no chão. Eu sentia
pena das mães trabalhadoras do meu Brasil que, com 1h de almoço,
precisava voltar ao batente “de boas”. No meu caso, desempregada,
eu me dei valendo ao luxo de dormir horas e mais horas desse sono
avassalador.
Grávida, eu tinha
medo de sair de casa. Medo de morrer de fome, medo de cair de sono,
medo das inseguranças do mundo e meu bucho avançado pra frente como
se fosse capaz de deter qualquer coisa. Sempre achei que o bebê
pudesse ser mais bem guardado anatomicamente. Sei lá. Achava muito
exposta essa proeminência abdominal pra frente. E, pra completar, a
cereja do bolo foi que em 2015, como se não bastassem todas as
misérias do mundo, descobriu-se o zika vírus. Então, era grávida
gritando, menino chorando, papagaio correndo, cachorro latindo e eu
vestindo casaco, legging, meia e sapato fechado num ônibus lotado
Rio Doce/CDU. Morreria de calor, decerto, mas jamais pegaria zika,
meu amigo! Vem ser grávida assim no Brasil, vem!
Gravidez é para
fortes. E com isso não chamo de fracas as que não desejam ter
filhos de jeito nenhum (tópico pra outro texto, com certeza!).
Para os mosquitos,
não tinha jeito: repelente, casa, roupas apropriadas e um pouquinho
de fé em Deus. Para os enjoos, terminei descobrindo com minha amiga
Suzane que picolé de limão é a solução. Depois disso, desenvolvi
algumas evoluções pra isso, congelando uvas e água de coco. Então
o tempo foi passando, a barriga crescendo e o amor tomando o espaço
da dúvida; o amor percorrendo o corpo, sendo o sangue dessas novas
veias, as maternas, que têm fibras muito firmes, que alimentam e que
nos retroalimentam também.
Descobri que a
gravidez não explica, mas complica a gente num novelo no qual ainda
ando meio perdida, tentando achar o fio dessa meada, que vem aguçando
a cada dia minha curiosidade, minha maturidade pra enfrentar todas
essas transformações. Sem dúvida alguma, mais forte, muito mais
forte.
Que texto lindo! Como foi bom ler isso!
ResponderExcluirQue coisa boa!! Volte sempre!! 💜
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