sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

O verbo do bebê

Bebês não falam imediatamente quando nascem. Muito embora tentem, a todo custo, transmitir pra gente, em especial, às mães, suas vontades/necessidades. Acho que por isso mesmo, nossos filhos nascem chorando.

É o som com o qual devemos nos acostumar desde cedo. Mas engana-se quem acha que é um alarido só. São muitos, de diversas entonações e intensidades. Talvez sejam imperceptíveis essas diferenças aos outros, mas a mãe aos poucos vai tomando o conhecimento dessas diversidades e fazendo as devidas associações. Tem choro de fome, choro de sono, choro de irritação, dor, tédio, fralda suja, falta…

Eu tinha pânico do primeiro gritinho que Francisco dava. Por isso mesmo que, quando ele dormia, ao contrário do que se esperava, eu não pegava no sono também, mas ficava numa espera constante do próximo choro. E isso acontece até hoje, mesmo que de uma forma menos evidente para mim. Acho que foi se misturando com todas as outras coisas que vão mudando na gente. Ser mãe é um estado de virgília.

Em outras palavras, há 9 meses que não durmo. Há 9 meses que eu evito o choro. O choro passou a ser pra mim um calendário, um relógio e o termômetro de bem-estar do meu filho. Se ele chora pouco, ele tá bem. Era isso que eu pensava.

Acontece que agora, às vésperas dos 9 meses de Francisco, eu entendo que assim como mudam as entonações do choro, mudou também a perspicácia desse chamado. Sim, hoje em dia ele me chama. E por outros novos motivos que ele aprendeu com a experiência. Não é “manipulação”, como falam. Acho bizarro quem acredita que uma criança tem maturidade pra manipular alguém. Ele apenas sente que precisa. Ele me chama por todos os motivos anteriores, da época em que ele era recém-nascido e movido muito mais pela natureza de seus instintos do que por racionalidade, mas chama também por questões novas, trazidas com o amadurecimento.

Então, ele chama porque 1) ele sabe que eu vou e 2) ele me prefere. Sim. Ele me prefere entre as inúmeras possibilidades de pessoas ao seu redor. E isso ele aprendeu. Ele aprendeu que desde muito cedo eu era a mulher que realizava todos os seus desejos, supria todas as suas necessidades e transmitia pra ele segurança, principalmente esta.

Mas ele tem pai, avó, avô, babá, tios. Todos prontos pra abrir os braços pra ele. E Francisco ama todos esses braços, mas se eu estirar os meus…

Então foi percebendo isso que se deu meu primeiro rompimento com a ditadura do choro. Eu entendi que há um choro, entre os inúmeros outros, que é preciso ser vencido e não afagado. É o choro que dói mais na mãe do que no filho: o choro do des-envolver.

Sair do envolvimento da mãe é dar um passo grande para que o filho se torne social. Não é de um dia pra o outro virar as costas para o neném que lhe estendeu os braços, mas mostrá-lo aos poucos que há outros abraços maravilhosos a receber e que isso não significa que os da sua mãe deixarão de existir.

Estou muito madura aqui falando sobre isso, mas, acredite, pesa. Neste momento, Francisco tem quase 9 meses e inicia sua sustentação em pé, e eu… eu, bem, eu estou engatinhando nessa história.

Mas, oremos!



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