Bebês não falam
imediatamente quando nascem. Muito embora tentem, a todo custo,
transmitir pra gente, em especial, às mães, suas
vontades/necessidades. Acho que por isso mesmo, nossos filhos nascem
chorando.
É o som com o qual
devemos nos acostumar desde cedo. Mas engana-se quem acha que é um
alarido só. São muitos, de diversas entonações e intensidades.
Talvez sejam imperceptíveis essas diferenças aos outros, mas a mãe
aos poucos vai tomando o conhecimento dessas diversidades e fazendo
as devidas associações. Tem choro de fome, choro de sono, choro de
irritação, dor, tédio, fralda suja, falta…
Eu tinha pânico do
primeiro gritinho que Francisco dava. Por isso mesmo que, quando ele
dormia, ao contrário do que se esperava, eu não pegava no sono
também, mas ficava numa espera constante do próximo choro. E isso
acontece até hoje, mesmo que de uma forma menos evidente para mim.
Acho que foi se misturando com todas as outras coisas que vão
mudando na gente. Ser mãe é um estado de virgília.
Em outras palavras,
há 9 meses que não durmo. Há 9 meses que eu evito o choro. O choro
passou a ser pra mim um calendário, um relógio e o termômetro de
bem-estar do meu filho. Se ele chora pouco, ele tá bem. Era isso que
eu pensava.
Acontece que agora,
às vésperas dos 9 meses de Francisco, eu entendo que assim como
mudam as entonações do choro, mudou também a perspicácia desse
chamado. Sim, hoje em dia ele me chama. E por outros novos motivos
que ele aprendeu com a experiência. Não é “manipulação”,
como falam. Acho bizarro quem acredita que uma criança tem
maturidade pra manipular alguém. Ele apenas sente que
precisa. Ele me chama por todos os motivos anteriores, da época em
que ele era recém-nascido e movido muito mais pela natureza de seus
instintos do que por racionalidade, mas chama também por questões
novas, trazidas com o amadurecimento.
Então, ele chama porque 1) ele sabe que eu vou e 2) ele me prefere. Sim. Ele
me prefere entre as inúmeras possibilidades de pessoas ao seu redor.
E isso ele aprendeu. Ele aprendeu que desde muito cedo eu era a
mulher que realizava todos os seus desejos, supria todas as suas
necessidades e transmitia pra ele segurança, principalmente esta.
Mas ele tem pai,
avó, avô, babá, tios. Todos prontos pra abrir os braços pra ele.
E Francisco ama todos esses braços, mas se eu estirar os meus…
Então foi
percebendo isso que se deu meu primeiro rompimento com a ditadura do
choro. Eu entendi que há um choro, entre os inúmeros outros, que é
preciso ser vencido e não afagado. É o choro que dói mais na mãe
do que no filho: o choro do des-envolver.
Sair do envolvimento
da mãe é dar um passo grande para que o filho se torne social. Não
é de um dia pra o outro virar as costas para o neném que lhe
estendeu os braços, mas mostrá-lo aos poucos que há outros abraços
maravilhosos a receber e que isso não significa que os da sua mãe
deixarão de existir.
Estou muito madura
aqui falando sobre isso, mas, acredite, pesa. Neste momento,
Francisco tem quase 9 meses e inicia sua sustentação em pé, e eu…
eu, bem, eu estou engatinhando nessa história.
Mas, oremos!
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